Publicado em 20 de fevereiro de 2026 por Suporte Agencia

FIM DA ESCALA 6X1: AVANÇO SOCIAL OU RISCO À ECONOMIA BRASILEIRA?

A discussão sobre o fim da jornada de trabalho 6×1 (modelo em que o trabalhador atua por seis dias consecutivos com apenas um de descanso) tem ganhado força no Congresso Nacional. Entre as propostas em análise está a PEC 8/2025, que prevê a adoção de uma jornada de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias de trabalho, e a PEC 148/2015, que propõe a redução gradual da carga horária semanal de 44 para 36 horas.

As iniciativas seguem uma tendência internacional inspirada no movimento “4-Day Week”, iniciado na Nova Zelândia em 2019 e fortalecido após a pandemia da Covid-19, que reacendeu o debate sobre produtividade, saúde mental e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Embora o debate foque na qualidade de vida do trabalhador, entidades e economistas alertam para custos significativos que podem afetar toda a cadeia de operação das empresas brasileiras.

O aumento real no custo do trabalho

A principal preocupação para as empresas é o aumento imediato do custo por hora trabalhada, já que as propostas preveem a redução da jornada sem diminuição proporcional do salário.

A FecomercioSP calcula um aumento de 22% no custo do trabalho. Já um estudo do Ipea indica um acréscimo de 7,84% para uma transição para 40 horas semanais (modelo 5×2) e de 17,57% caso a jornada caia para 36 horas (modelo 4×3).

Projeções do economista Daniel Duque, do Centro de Liderança Pública e pesquisador do FGV Ibre, indicam que a redução da jornada para 40 horas semanais, sem a correspondente diminuição salarial, pode gerar impactos significativos na economia brasileira. Segundo os cálculos, o país poderia registrar uma perda de aproximadamente R$ 88 bilhões em atividade econômica, o equivalente a uma retração de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB), além da perda de cerca de 638 mil a até 1,2 milhão de postos apenas no primeiro ano de vigência, em razão do aumento dos custos para as empresas.

Setores mais afetados e risco ao emprego

Nem todas as empresas sentirão o impacto da mesma forma. Setores que dependem intensamente de mão de obra presencial e escalas contínuas serão os mais pressionados, como por exemplo, micro e pequenas empresas que influenciam em cerca de 27% do PIB seriam uma das mais afetadas, já que possuem menor capacidade de absorver aumentos abruptos de custos.

Outros setores que seriam afetados seriam o de Comércio e Serviços: que estima uma perda de cerca de 164 mil empregos no comércio e uma perda de 170 mil em serviços diversos. E o setor de Vigilância e Limpeza, que segundo o Ipea, essas atividades enfrentariam uma elevação de 6% nos custos operacionais.

O desafio da produtividade

Para especialistas, a redução da jornada só é sustentável quando acompanhada por ganhos de produtividade. Entretanto, enquanto o ganho médio anual de produtividade no mundo ficou em torno de 1,5% entre 2016 e 2025, no Brasil o avanço não ultrapassou 0,5% no mesmo período, segundo o compilador de dados governamentais CEIC Data.

Sem ganho de eficiência, a tendência é que as empresas repassem o aumento de custos para os preços dos produtos e serviços, gerando uma inflação generalizada, que reduz o poder de compra das famílias e que poderia levar o Banco Central a elevar a taxa de juros como instrumento para conter a alta inflacionária, o que, por sua vez, impactaria o consumo, o crédito e o ritmo de crescimento da economia.

Alternativas e tendências

Paralelamente ao fim da escala 6×1, experimentos com a semana de 4 dias foram realizados no Brasil. Embora 95% dos colaboradores relatem melhora na saúde mental e as empresas participantes tenham dado nota alta ao projeto, a implementação definitiva ainda é baixa: de 20 empresas no projeto-piloto brasileiro, apenas duas mantiveram a jornada reduzida oficialmente, com a maioria migrando para modelos híbridos ou flexíveis.

A experiência internacional, como na Islândia e Reino Unido, sugere que mudanças graduais e focadas em tecnologia e gestão podem mitigar danos, mas o cenário brasileiro, marcado por alta informalidade e mercado de trabalho aquecido, exige cautela para evitar o fechamento de postos formais e o aumento da insegurança jurídica.

Em conclusão, o debate central sobre o fim da escala 6×1 revela que o Brasil tenta replicar modelos de trabalho que têm prosperado em economias de “primeiro mundo”, mas sem possuir a mesma base estrutural. Experiências bem-sucedidas em países como Islândia, Bélgica e Nova Zelândia mostram que a redução da jornada é possível quando há alta produtividade e estabilidade econômica.

O problema apontado pelos especialistas é que, nesses países desenvolvidos, a redução da carga horária foi sustentada por ganhos prévios de eficiência, tecnologia e qualificação. No Brasil, entretanto, a produtividade é cronicamente baixa, crescendo menos de 0,5% ao ano, e além disso, o país ainda sofre com problemas de falta de saneamento básico, educação, segurança pública, saúde, dentre outros problemas que devem ser resolvidos antes de se pensar em fim da escala 6×1.

Portanto, implementar uma mudança dessa magnitude sem antes resolver problemas fundamentais de infraestrutura e produtividade pode, segundo as fontes, inverter a lógica do desenvolvimento: em vez de gerar bem-estar, a medida corre o risco de elevar o custo do trabalho em 22%, aumentar a informalidade e encarecer o custo de vida para os próprios trabalhadores. Para que o modelo de países desenvolvidos funcione aqui, o Brasil precisaria primeiro de uma estratégia clara para elevar sua eficiência nacional ao patamar dessas economias.

Por Tiago Mateus Bonini – Assistente na área trabalhista – Barroso Advogados Associados; e

Vivian Campos Massella – Advogada e Coordenadora da área trabalhista – Barroso Advogados Associados

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